O mesmo telemóvel, na mesma semana. Numa cadeia portuguesa custa 329 euros. Numa loja espanhola custa 249. São oitenta euros de diferença no mesmo aparelho, com a mesma caixa e a mesma marca.
A primeira vez que vi isto assumi que havia truque. Ou o IVA vinha por fora, ou os portes comiam a diferença, ou alguma coisa ali não batia certo. Fui ver ao pormenor, e o que encontrei foi menos dramático e mais interessante do que eu esperava.
A resposta curta
A poupança é real e o IVA não é o motivo. Numa loja espanhola o preço que vê já inclui IVA e não vai pagar mais nada na entrega, porque a encomenda circula dentro da União Europeia. O que muda de verdade é a margem da loja, a estrutura de custos e o facto de as cadeias portuguesas venderem muito mais do que o aparelho.
Porque é que a diferença existe
Não é uma coisa só, são quatro, e somam.
- Loja física custa dinheiro. Cada metro quadrado num centro comercial, cada pessoa ao balcão, entra no preço da etiqueta. Uma loja que vende só online não tem essa conta para pagar.
- Escala e concentração. O mercado espanhol é bastante maior que o português. Quem compra ao fornecedor em maior volume compra melhor, e parte disso chega ao preço final.
- A margem do especialista é outra. As cadeias generalistas trabalham telemóveis muitas vezes como produto de atração, e compensam noutras coisas. Uma loja especializada trabalha com margem apertada e vive do volume.
- O que vem agarrado ao preço. Isto é o mais importante e é o menos falado. Muito do preço de uma cadeia grande é a comodidade de ter alguém ali para atender, trocar no dia, e resolver.
O IVA, de uma vez por todas
Esta é a dúvida que mais aparece, por isso vale a pena arrumá-la.
Quando compra como particular numa loja online de outro país da União Europeia que vende para Portugal, o IVA já está incluído no preço que lhe é mostrado. Não há segunda fatura, não há surpresa na entrega, e o preço que vê ao carregar em pagar é o preço final.
Onde há surpresas é fora da União Europeia. Aí o IVA é cobrado na entrada e a transportadora acrescenta uma taxa de desalfandegamento. Escrevi sobre isso ao falar dos prazos de entrega de Espanha para Portugal.
Faça a conta do preço final, não do preço da etiqueta
Antes de decidir, some sempre estas quatro linhas. É o que separa uma poupança real de uma poupança no papel.
| Linha da conta | Cadeia portuguesa | Loja espanhola online |
|---|---|---|
| Preço com IVA | 329€ | 249€ |
| Portes | 0€ se for buscar | 0€ a 6€ conforme a loja |
| Taxas na entrega | Nenhuma | Nenhuma, é mercado interno |
| Custo de devolver, se precisar | Ir à loja | Envio de volta, por vezes por sua conta |
| Diferença real | Cerca de 75 a 80€ |
Os valores são de um caso concreto e servem de molde. Faça a mesma tabela com o seu modelo antes de comprar, porque em aparelhos mais baratos a diferença encolhe e os portes passam a pesar.
Onde isto corre mal
Comprar fora tem um custo que não aparece na conta e que é honesto reconhecer, o tempo.
Se o aparelho avaria, numa cadeia portuguesa entra na loja, entrega, e resolve ali. Com uma loja online tudo passa por formulário, etiqueta de recolha e transportadora. Tem exatamente os mesmos direitos, os três anos de garantia legal valem em qualquer país da União Europeia, mas o caminho é mais lento. Contei como correu comigo no guia sobre a garantia de um telemóvel comprado em Espanha.
Há também o caso das versões. Parte das lojas mais baratas consegue esse preço vendendo unidades feitas para o mercado interno chinês, sem serviços Google e às vezes sem a banda 20. Aí já não é poupança, é outro produto. Confirme sempre em versão global ou versão chinesa.
Quando compensa mesmo, e quando não
Compensa em aparelhos acima dos duzentos euros, onde a diferença percentual se traduz em dezenas de euros, e quando não tem pressa nenhuma em ter o telemóvel na mão amanhã.
Não compensa em aparelhos muito baratos, onde a diferença é de dez ou quinze euros e desaparece nos portes. Também não compensa se é presente para dar depois de amanhã, nem se a pessoa que vai usar o telemóvel não tem paciência nenhuma para tratar de um processo online caso algo corra mal.
Perguntas que me fazem sempre
A fatura serve para a garantia se estiver em espanhol?
Serve. O que interessa é ser prova de compra com data, vendedor e produto identificados. Guarde o email e o ficheiro, e não conte com o papel dentro da caixa.
Posso pôr o telemóvel no meu NIF?
Pode indicar o NIF, mas não conte com a fatura a entrar no e-fatura como uma compra feita em Portugal. Isso não muda os seus direitos como consumidor, muda só o lado fiscal.
E o Livro de Reclamações?
Uma loja espanhola não tem o nosso Livro de Reclamações. Em contrapartida existe a rede europeia de apoio ao consumidor para compras entre países da União Europeia, que é o caminho quando o vendedor se cala. É mais lento que reclamar cá, e é mais uma razão para preferir lojas com nome e morada visíveis.
E comprar em segunda mão, não é melhor negócio?
Pode ser, mas muda o jogo todo. Entre particulares não tem garantia legal nem devolução em catorze dias. É outro tipo de risco e merece artigo próprio.
O que eu faria hoje
Faço a tabela do preço final para o modelo que quero. Se a diferença ficar abaixo dos trinta euros, compro cá e fico com a comodidade. Se passar dos cinquenta, compro fora e aceito que uma eventual reparação vai demorar mais duas semanas. É uma troca consciente, e é assim que eu decido de cada vez.