Comprei uma vez um telemóvel que parecia o negócio do ano. Era o mesmo modelo que estava numa loja portuguesa, com o mesmo nome, e custava quase cem euros menos. Paguei, esperei, abri a caixa, e percebi ao fim de dez minutos que aquilo não tinha Google Play. Nem Gmail, nem Maps, nem a app do banco. Tinha uma loja de aplicações inteira em chinês.
Não era um telemóvel avariado. Era um telemóvel feito para o mercado interno da China, vendido a alguém que não sabia a diferença. Esse alguém era eu.
A resposta curta
A versão global e a versão chinesa são o mesmo aparelho por fora e sistemas diferentes por dentro. A versão chinesa vem sem os serviços da Google, muitas vezes sem português na lista de idiomas, e com um risco alto de não apanhar a banda 20, que é a frequência que dá rede fora das cidades em Portugal. A diferença de preço existe por causa disso, e quase nunca compensa.
O que muda mesmo entre uma e outra
O corpo do telemóvel é igual. O ecrã, a câmara e o processador são os mesmos. O que muda é o sistema instalado de fábrica e, em alguns modelos, as frequências de rede que o aparelho consegue usar.
Na prática, uma versão chinesa dá-lhe quatro problemas de seguida.
- Sem serviços Google de origem. Não há Play Store. Há quem instale por fora, mas fica sempre a coxear, e as aplicações que dependem de verificação de segurança da Google costumam recusar-se a funcionar. É aí que a app do banco e o MB Way lhe fogem.
- Idioma limitado. Muitas versões chinesas trazem apenas chinês e inglês. Português pode simplesmente não estar na lista.
- Publicidade e aplicações do mercado chinês. O sistema vem com serviços que não usa e que não consegue desinstalar.
- Bandas de rede diferentes. É o mais grave e o mais silencioso, porque só dá pela falta quando sai da cidade. Escrevi sobre isso no guia da banda 20.
Como identificar antes de pagar
Estes quatro passos apanham quase todos os casos, e levam dois minutos.
1. Procure a palavra global na descrição
As lojas sérias escrevem versão global ou versão europeia na ficha do produto, porque sabem que é isso que o comprador quer confirmar. Se a ficha não diz nada sobre a versão, desconfie. Ninguém esconde uma coisa boa.
2. Veja se o preço está bom demais
Uma diferença de vinte ou trinta euros face às outras lojas é normal e explica-se com margem. Uma diferença de cem euros no mesmo modelo, na mesma semana, quase sempre tem explicação, e a explicação costuma ser a versão.
3. Pergunte por escrito, antes de pagar
Este é o passo que a maioria das pessoas salta e é o que mais o protege. Mande uma mensagem ao vendedor com uma pergunta simples, se aquele aparelho é versão global com serviços Google instalados de origem e se suporta a banda 20. Guarde a resposta.
A resposta por escrito passa a fazer parte do que lhe foi vendido. Se o telemóvel chegar diferente do que ali está dito, deixa de ser uma questão de gosto e passa a ser falta de conformidade, e a lei fica do seu lado.
4. Confirme assim que a caixa chegar
Antes de configurar seja o que for, vá a Definições, depois Acerca do telemóvel, e veja a versão do sistema. Ela termina quase sempre num código de região. Se esse código apontar para a China, chegou a versão errada. Confirme também se a Play Store está lá de origem e se o português aparece na lista de idiomas.
Faça isto no dia em que recebe, não daqui a três semanas. Tem catorze dias para devolver sem dar justificação nenhuma, e esse prazo corre desde a entrega.
Onde isto corre mesmo mal
Há uma variante pior do que a versão chinesa honesta, que é a versão chinesa com um sistema global instalado por cima por quem vendeu. Por fora parece tudo normal, tem Play Store e tem português. O problema aparece na primeira atualização de sistema, que pode deixar o aparelho num estado em que não arranca, ou remover aquilo que tinha sido instalado por fora.
Sinais de alerta, um aparelho que chega já configurado, um sistema com número de versão estranho, ou um vendedor que lhe pede para não atualizar o telemóvel. Se lhe dizem para não atualizar, devolva.
Lado a lado
| O que interessa | Versão global ou europeia | Versão chinesa |
|---|---|---|
| Google Play de origem | Sim | Não |
| Português no sistema | Sim | Muitas vezes não |
| Banda 20 | Quase sempre | Confirmar sempre, falha com frequência |
| Atualizações oficiais | Normais | Do mercado chinês, sem garantia de compatibilidade |
| App do banco e MB Way | Funciona | Costuma falhar |
| Preço | Referência | Mais baixo, e agora já sabe porquê |
E se já comprei uma versão chinesa
Se ainda está dentro dos catorze dias, devolva. É o caminho mais limpo e não precisa de dar explicação nenhuma ao vendedor.
Se já passou o prazo, tem duas hipóteses. Ou vive com ele, e nesse caso vale a pena saber que dá para instalar as aplicações essenciais por fora, com as limitações que já expliquei. Ou tenta a garantia por falta de conformidade, se o anúncio dizia versão global e chegou outra coisa. É aqui que a mensagem escrita ao vendedor, aquela do passo três, vale ouro.
Perguntas que me fazem sempre
Dá para transformar uma versão chinesa numa global?
Em alguns modelos dá, com trabalho e com risco de estragar o aparelho, e perde a garantia. Não recomendo a ninguém que queira um telemóvel para usar e não para andar a resolver. Se está a comprar para poupar tempo e dinheiro, isto é o contrário das duas coisas.
A garantia é válida numa versão chinesa comprada na Europa?
Quem responde pela garantia é sempre o vendedor que lhe passou a fatura, independentemente da versão do aparelho. O problema não é ter direito, é o tempo e a chatice de o exercer. Falo disso no guia sobre a garantia de um telemóvel comprado em Espanha.
Versão global e versão europeia são a mesma coisa?
Não exatamente, mas para si funcionam as duas. A europeia costuma trazer as bandas de rede daqui já certas e o carregador com ficha nossa. A global é mais abrangente e é a que encontra com mais frequência nas lojas espanholas.
E o carregador, vem com ficha portuguesa?
Numa versão chinesa muitas vezes não, vem com a ficha do padrão chinês. Resolve-se com um adaptador de dois euros, mas é mais um sinal de que aquele aparelho não foi feito para ser vendido aqui.
O que eu faria hoje
Pergunto por escrito antes de pagar e guardo a resposta. Se o vendedor responde depressa e sem rodeios, avanço. Se responde com vaguidades, ou se demora três dias a dizer que sim, procuro noutro sítio. Aquela resposta é a diferença entre um telemóvel que uso quatro anos e uma tarde perdida a tentar instalar a Play Store à força.